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Capitulo 2

Updated: Jan 11

Rubens era um bom rapaz e logo se tornou um bom amigo., Também fiz amizade com uma garotinha que estava no mesmo acampamento que nos, não lembro o nome dela, acho que tínhamos a mesma idade, eu dividia com ela meus brinquedos e minhas roupas, eu tinha mania de estilista e adorava tomar vários banhos por dia, Teresa já tinha brigado comigo algumas vezes pois não estava nada contente com essas minhas manias e muito menos gostando da minha ideia de doar minhas coisas para amiga.

Como estávamos morando em barracas nesse acampamento o banho era bem improvisado, eles tinham armado um cercado de lona e era ali que tomávamos banho.

Teresa me deixava no acampamento para ir trabalhar no campo, eu muito pra frente dava o meu jeito em tudo, para tomar banho peguei o caneco que ela usava para esquentar água, ia ser perfeito o meu banho de caneca.

Quanto a minha carreira de estilista eu também tinha uma solução, já que eu não podia dar minhas roupas para a minha amiga, tive a brilhante ideia..

Transformei o guarda-chuva em uma saia, que combinou perfeitamente com a sandália bege que eu tinha. fiquei bastante orgulhosa do meu trabalho, afinal ninguém falou nada sobre guarda chuvas e sapatos.


Quando Teresa chegou do trabalho, a cena que ela via era a saia do meu guarda-chuva vestido em forma de saia em uma menina pulando pra lá e pra cá com as minhas sandálias nos pés.

Foi a primeira vez que senti o peso das mãos de Teresa, ela ficou furiosa comigo, e quando eu pensei que ela tinha se acalmado ela foi fazer café, foi uma péssima ideia usar o caneco que ela usava pra ferver a água no meu banho e ainda deixar o sabonete dentro, naquele dia senti a fúria dela em minha pele dividida em três fases, ela me batia dizendo essa é pelo o guarda-chuva, essa e pela a sandálias e essa pelo o caneco.


Eu ouvi inúmeras vezes Teresa falar a algumas pessoas o desespero que tinha sido aquela noite.,

Naquela noite veio uma tempestade e estava destruindo o acampamento, e por não conseguir me acordar ela pensou que tinha me matado então me pegou nos braços pensando que eu estava morta e saiu correndo para um abrigo próximo. eu me lembro de acordar nos braços dela sem entender nada enquanto ela corria, embora o medo tivesse tomado conta de todos, ela parecia aliviada.



REFLEX DA CULPA...


O relacionamento entre Teresa e Rubens não estava nada bem. Teresa estava bebendo cada dia mais e ficando muito mais violenta, embora Rubens fosse um jovem calmo e doce, ele já estava perdendo a paciência.

Um dia completamente fora de si, Teresa agrediu Rubens que tentava acalmá-la,mas sem êxito. Infelizmente, ele perdeu o controle e reagiu aos golpes dela dando um soco que a acertou o olho dela. Quando ela caiu, ele ficou desesperado, mas já era tarde demais.

Por causa do ferimento, Teresa adquiriu uma infecção no olho, naquele lugar onde estávamos, o atendimento médico não estava a fácil alcance, e ela foi cuidando como podia, mas a infecção só piorava, os vizinhos sugeriram pôr no olho fumo torrado, que loucura! dava para ouvir os gritos dela de longe quando fizeram isso, como isso poderia ser remédio para infecção no olho?

Já ouviram aquela expressão pimenta no olho do outro é refresco? Pois é, nesse caso, fumo, não foi nada refrescante!


Infelizmente ela perdeu total visão de um olho, e Rubens não era mais o mesmo, o sentimento de culpa o atormentava, ele pedia perdão a ela o tempo todo, embora Teresa o tivesse perdoado, ele não se perdoava. Olhar para ela era como olhar a si mesmo diante de um espelho à medida que o olho dela morria dia após dia. Rubens, só via o reflexo da culpa.


Hoje relembrando consigo imaginar o que ele sentiu, quando machucamos alguém que amamos, é uma ferida que se abre em ambos, algumas dessas feridas deixam marcas pra vida toda.


SEGUNDO ACAMPAMENTO…

A colheita de algodão tinha acabado, então fomos para um outro acampamento vizinho.

Agora o trabalho era roçar pastos,era um trabalho bem pesado, eles tinham que limpar todo o campo para ficar apropriado para o gado.

Eu achava super divertido brincar naqueles matos, mas Teresa achava muito perigoso me levar, por causa das cobras, então ela estava me deixando no acampamento.


O acampamento era um pouco melhor que o primeiro, agora era umas casinhas de madeiras, dentro tinha uma cama feita de tábuas e colchão de palha, mas agora eu não tinha mais nenhuma amiga.

Havia uma família bem estranha ao lado do nosso quarto, o casal tinha 2 filhos ainda bebês, a mulher eu não me lembro bem como ela era, mas me lembro que não tinha uma boa higiene com os bebês, melhor eu nem entrar nesses detalhes, vou deixar você usar sua imaginação.


Como eu não podia ir mais para os pastos junto com Teresa e Rubens, minha diversão era brincar debaixo de um pé de goiaba ou sentar na beira da estrada para ver os vaqueiros passar.


Certo dia quando eu estava brincando debaixo do pé de goiaba, o vizinho, pai dos 2 bebês, deitou em cima de mim e começou a me tocar, não consegui ter nenhuma reação, aqueles toques eram completamente estranhos, me fazia sentir muito medo, eu não tive coragem de contar para ninguém, mas à partir daquele dia, eu tinha pavor em ficar sozinha. Então comecei a implorar para Teresa me levar junto com ela para o trabalho, mas ela não deixava de forma alguma.

Quando eles pegavam a estrada de manhã para o trabalho, eu entrava em desespero e saia correndo atrás deles, para ela eu só estava fazendo birra, ela nem prestou atenção como que de um dia para o outro, eu não queria mais ficar sozinha.


Depois de várias birras, choros, e de sair correndo atrás dela pelo caminho afora, ela decidiu me deixar trancada, colocou uma tranca na porta do lado de fora e me deixou lá, trancada, imagina o meu desespero?

Mas eles estavam com pressa para ir para o trabalho, e na correria esqueceram o martelo em cima do fogão, é claro que logo planejei a minha fuga.

A essa altura, você já deve ter percebido que eu era boa nisso!


Peguei o martelo e comecei a bater em uma das tábuas na parede embaixo do fogão, ela me pareceu o caminho mais fácil para escapar e não é que eu consegui despregar a tábua! Cara, eu era uma garotinha bem esperta!


Mas não consegui ir muito longe, no meio da estrada, eu percebi que, não tinha a menor noção de onde eles estavam, imaginem o tanto que eu gritei!


Eles ouviram meu grito de longe e vieram correndo ao meu encontro, pensando que algum animal selvagem estava me devorando, mas era só o meu desespero mesmo que me devorava.

Graças a Deus Teresa ainda se lembrava da última surra que me deu, ‘’e que me resultou em uma unha aleijada’’ ou ela ficou feliz em ver que eu não estava sendo devorada por um animal e não me bateu, mas me trancou novamente, dessa vez ela lembrou de tirar o martelo do meu alcance.


E eram assim os meus dias naquele acampamento, presa na minha pequena masmorra, mas nem um príncipe apareceu pra me resgatar, só os vaqueiros que passavam e gritavam: ei Rose ta de castigo né? Isso me irritava muito, e como eu era uma criança um pouco bocuda eu os respondia com alguns “elogios”.

Teresa teve um pouquinho de trabalho para polir meus hábitos verbais, quando eu ficava irritada, mas isso é um assunto para um próximo capítulo.



Assim eram meus dias naquele acampamento, me acostumei a ficar trancada quando eles estavam trabalhando.

Mesmo não fazendo mais birras para ir com eles para o trabalho, eles achavam melhor eu continuar trancada, pois eles tinham encontrado um homem morto pendurado em uma árvore no mato, e a morte não foi explicada.

Até que eles encontrassem um outro trabalho, essa parecia a melhor solução para o momento.

Entre uma folga e outra do trabalho, quando Teresa não estava embriagada era divertido Íamos pescar no Rio Paranazão, me lembro que era gigante o rio e que Rubens me levando nos ombros para alguns pontos de pescaria, para mim essa era a melhor parte eu ia batendo os pés na água, e Rubens falava: ‘’Pára Rose! a gente vai cair e aqui tá fundo''! Mas como toda criança, eu não dava muito ouvido.


Esses momentos de pescarias, e de observar os vaqueiros na estrada eram o mais perto que eu chegava de confortar a saudade que eu sentia de Pedro, tudo que Rubens fazia para mim eu falava: ‘’meu pai também fazia assim’’ isso deixava ele um pouco triste, Teresa dizia que não entendia como eu poderia sentir tanta saudades de alguém que eu tinha convivido tão pouco! Mas os oito meses que vivi com Pedro valeu para uma vida toda.


O rosto de Rubens em minhas lembranças é só uma sombra, mas o cuidado e carinho que ele teve comigo é bem nítido, eu gostaria muito de hoje ter a oportunidade de agradecê-lo por tanto, talvez ele nunca saiba, o quão importante foi em minha infância.

Tantas pessoas boas e ruins eu encontrei no caminho e hoje não consigo lembrar nem do nome! No entanto Rubens, marcou um capítulo na minha história me levando o mais perto que ele podia de um pai.


Muitas vezes nos cobramos muito achando que o que estamos fazendo é pouco, mas o pouco que fazemos com a sinceridade do nosso coração pode mudar o mundo de uma pessoa, porque não importa o quanto você se doa, mas como você se doa, se o seu melhor e feito com amor, tenha certeza que, será de um valor imensurável..





OBRIGADO A TODOS OS RUBENS QUE SE PERMITIRAM SER COMO UMA SOMBRAS FRESCA CHEIA DE AMOR, EM CAPÍTULOS QUENTES NA VIDA DE ALGUÉM..



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